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terça-feira, 25 de março de 2014

"Hangout" para o filho

Síndrome do Ninho Vazio

Os dias sem o filho perdem boa parte da graça e aquele quarto escuro e sem vida parece um anexo fantasmagórico. Abro a janela para dar um ar de movimento, mas a quem eu engano? Liguei os aparelhos na tomada mas retirei a luminária de toque. Ela acendia sozinha quando eu levantava durante a noite em franca provocação. Parece que não sou apenas eu a sentir a sua falta por aqui...
A mãe gosta da chuva, mas, ao mesmo tempo, sente uma melancolia climática. Conto os dias para o 18 próximo - teremos torta de bacalhau. Mais algum desejo?
Beijos



segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Cajucajucajucaju...

As reuniões em Brasília podem ser muito agradáveis quando os componentes são gente que, apesar de levar o trabalho muito a sério, tocam os assuntos com leveza e alegria.
Minha quarta-feira antevéspera do feriado da independência não foi diferente. Almocei em companhia de um grande amigo e que me buscou no final da reunião para me levar ao aeroporto. Lastimamos eu não poder ficar mais um tempo por lá e combinamos qualquer viagem de fim de semana para colocarmos os papos em dia.
Já no guichê de check-in da TAM, descobri que meu assento era na poltrona do meio: 18b. Perguntei se não havia outro local e a funcionária explicou que somente na "poltrona confort". Nem havia o que pensar, paguei com alegria o assento 11c. 
Nos despedimos com um abraço apertado daqueles que a gente sabe o quanto é bem-vinda e parti para o meu destino: voo 3029, portão 10.
Esperei muito pouco para entrar, meu cartão platinum me proporciona prioridade no embarque. Sentei-me ao corredor e voltei a escrever um texto que havia iniciado no voo de ida; o avião foi lotando enquanto eu estava entretida na minha escrita. Um dos últimos passageiros foi um homem com a idade indefinida daqueles que parecem ter feito plástica no rosto e ficam parecendo parentes próximos do Paulo Maluf. Impliquei imediatamente com aquela figura de terno marrom, falando palavrões ao telefone. Enquanto estava ao telefone, ele colocou sua bagagem no compatimento acima do meu assento. A barriga dele interrompeu minha atividade e precisei me encolher junto ao passageiro ao meu lado. Estava detestando aquilo tudo e resmungando por dentro: figura típica de Brasília! O homem se sentou na poltrona da mesma fila, também no corredor. Voltei a escrever e, de repente, ouvimos um estrondo medonho e senti uma dor lancinante no topo da cabeça. Olhei de soslaio para o chão e, aos pés do homem com cara de sapo, estava caída uma maleta larga, de couro marrom.
A mão esquerda, colocada à cabeça instintivamente como se fosse fazer parar a dor, estava ensanguentada e o passageiro ao meu lado falou: "a senhora está sangrando". Respondi meio apavorada, mas firme: eu sei. Levantei-me e a maleta ainda estava no mesmo lugar. Fulminei o batráquio com o olhar e perguntei em tom de acusação: a mala é do senhor, não é? "Sim, é minha." O anuro não teve como negar o que seguramente tentava disfarçar. Cuspi a frase com todo o meu nojo e indignação: eu sabia, o senhor é um arrogante. Agiu com arrogância ao colocar uma mala em local onde sabia que não caberia.
O imbecil respondeu na defensiva: "Arrogante, eu? Eu pedi desculpas à senhora!"
Não sei se ele se desculpu, não escutei e era totalmente irrelevante.
Peguei meu livro no bolsão à frente da poltrona e saí do avião com a roupa e o cabelo empapados de sangue. As portas ainda não haviam sido fechadas. As comissárias estavam na parte da frente da aeronave, apavoradas com a cena. Uma delas me perguntou: "A senhora não trouxe uma bolsa?" Claro que eu havia trazido, descrevi a bolsa e esperei uma delas ir buscar. Afastei-me das duas outras porque a minha figura devia estar nauseante enquanto uma delas me dizia que já havia chamado atendimento médico do aeroporto. A moça demorou a voltar - imagino a quantidade de tralha colocada encima da minha bolsa - e eu sabia que não iria aguentar muito tempo ali em pé. Avisei que iria entrar no aeroporto e elas concordaram. Nenhuma pareceu vir atrás de mim, mas, ao chegar no embarque, havia outra turma de funcionários da TAM, também no portão 10, para um outro voo. Falei para a moça com o rádio na mão e que acabara de escutar o acidente: vou me sentar naquela cadeira de rodas, tá? Ela assentiu e disse: "fique calma, o atendimento médico está a caminho." Peguei o telefone para ligar para o meu amigo, falei com ele rapidamente e prometi ligar dando mais notícias. Senti minha pressão despencar e o enjoo veio fortíssimo: eu ia desabar e me imundar mais ainda. Resolvi abaixar a cabeça para não desmaiar. A funcionária com o rádio decidiu não esperar o socorro e encaminhou minha cadeira rumo à emergência. Expliquei a ela que, se algo me acontecesse, ela deveria ligar para o meu amigo, último telefone registrado, do meu aparelho branco. Expliquei que a bateria estava no final, mas eu trazia o fio em minha bolsa. Logo depois de chegarmos à emergência da INFRAERO a outra equipe de médico e enfermeiro chegou por não ter me encontrado. Fui muito bem tratada no atendimento e me fizeram as peguntas de praxe; a quantidade de cabelo que tenho estava atrapalhando a investigação no meu couro cabeludo. Foi preciso meter minha cabeça abaixo da torneira para que o médico diagnosticasse: "2 cortes, um deles precisa ser suturado. Você terá que ir ao hospital." Como não era caso para ambulância, a INFRAERO me levaria ao hospital onde há o atendimento do meu plano de saúde. Preferi pedir para chamarem meu amigo porque me sinto mais segura com ele. Enquanto esperava ele chegar, fiz umas ligações, avisei ao meu diretor que eu perderia as duas reuniões importantes no dia seguinte e pedi para me colocarem em um voo no dia seguinte. Eram sete horas da noite e eu adivinhava que estávamos apenas no início de uma maratona indesejada. Obtive total apoio de todos para quem liguei avisando; todos ficaram indignados com o ocorrido e muito preocupados. Senti-me muito amparada e querida; foi bom para o meu emocional.
Houve mudança de turno de médicos e enfermeiros, todos se despediram de mim e o médico do plantão pediu para eu repetir tudo que havia acontecido e me avisou: "conte ao médico no atendimento do hospital que você quase desmaiou e quase vomitou, é muito importante." Meu amigo chegou em seguida e me perguntou exatamente sobre o assunto e ratificou as instruções do médico. Fomos ao hospital Brasília, próximo ao aeroporto e onde é aceito o plano UNIMED. Seguimos o protocolo e, para a nossa surpresa, o plano Leste-Fluminense não é aceito nesse hospital. Depois de algumas tentativas frustradas de ligar para o 0800 fornecido por esse hospital, voltamos ao atendimento um pouco nervosos pelo tempo perdido e sem solução do problema. Minha cabeça voltara a sangrar. Finalmente, conseguimos um telefone local da UNIMED que nos indicou outro hospital. O atendimento do hospital Alvorada me deixou apreensiva. Havia gente esperando o atendimento para consulta comum misturado à gente com problemas de emergência, mesmo. Pegamos a senha e esperamos. Uma das funcionárias perguntou em voz alta: "tem alguém preferencial?" Ninguém disse nada e resolvi perguntar: cabeça aberta serve para atendimento preferencial? A moça disse: "não sei." Mas afinal, quem sabe? Ela chamou o próximo número da senha que era anterior ao nosso, em seguida, uma outra chamou meu número. Feita a ficha, fui atendida na sala de cirurgia. A médica perguntou: "está em dia com as vacinas?" Que vacinas? Não tomo vacina desde a infância!
Ela identificou apenas um corte e fez a sutura depois de avisar: "a picada da anestesia vai doer e arder." Doeu e ardeu, mas fazer o quê? O último ponto foi sentido, eram três ou quatro - saberei quando forem retirados. A quantidade de sangue deixada na cama foi grande, mas eu estava suturada, só faltava fazer o exame de raio-x. Minha caveira estava intacta, nenhuma fissura. A doutora fez um pedido de vacinação contra tétano o qual eu deveria fazer em até 24 horas. Saímos do hospital direto para a casa do meu querido amigo que cuidou de mim, colocou minhas roupas para lavar e me emprestou outras para eu vestir depois do banho. Meu cabelo estava completamente grudado e foi preciso três lavagens seguidas para ficarem apresentáveis. Depois de limpa e medicada, foi inevitável pensar na sorte em ter acontecido em Brasília, onde tenho apoio incondicional do meu adorado amigo, por ele ter disponibilidade para me acudir, lugar para eu dormir e também por possuir uma fabulosa máquina de lavar que também seca a roupa.
Compramos coca no posto de gasolina, pedimos pizza e dormi bem, não senti dores e meus ferimentos não sangraram mais. Realmente, sou afortunada, apesar do incidente. Lembrei-me do meu antigo, e muito querido, chefe que uma vez me disse: "Susana, até na adversidade, você tem sorte!"
Voltei para casa na manhã seguinte na mesma poltrona, mas o voo estava vazio e pulei para a janela, bem longe da boca do bagageiro. Em Niterói, fui direto para o posto de saúde tomar a vacina. Sem prestar a atenção ao que fazia, deixei o enfermeiro pegar meu braço esquerdo. Instruída de chegar em casa e pôr gelo, cheguei finalmente em casa. Não doeu nada; sim, dei a maior sorte.


foto tirada assim que entrei no voo 3029, de 5 de setembro, que deve ter partido às 18:18h de Brasília para o Santos Dumont com uma poltrona vazia: a minha.

domingo, 5 de janeiro de 2014

O homem e sua pelagem

O tempo ficou suspenso no ritmo da minha falta de respiração. As letras do e-mail apócrifo ora embaralhavam minha visão e ora focalizavam palavras isoladas que me apunhalavam o peito. "Seu marido é amante da amiga Teresa Cristina. Você não lê os vários blogs que ela tem?" Quando contei para a minha mãe que meu namoro de dois anos iria virar em casamento ela se assustou e, visivelmente, foi contra. Sofia, disse ela, você tem certeza de que conhece bem este homem? Lembre-se de que você não é livre: tem duas crianças pequenas que precisam de estabilidade. Sorri respondendo em italiano: mamma, sta tranquilla!
Será que ela estava certa ao ponderar que um homem que tivera vários casamentos e filhos somente fora destes não é talhado à prática da fidelidade? "Cachorro que come ovelha uma vez, só matando", acrescentou a Dona Laura olhando diretamente nos meus olhos.
Minha segurança era apenas por ele se dizer apaixonado por mim e se comportar como tal. Como ele pôde fazer isso comigo? O texto indica os trechos exatos onde a amante relata o aniversário do primeiro beijo e as datas dos mais variados encontros. Ela é mais antiga do que eu na vida dele. Nosso primeiro beijo foi bastante tempo depois do dela, mas, no entanto, foi comigo que ele veio morar. Se eu não estivesse tão zonza e sentindo todo este enjoo, leria todas as publicações dessa pervertida. De acordo com o e-mail-bomba (quem terá escrito uma fofoca baixa como essa?), mesmo depois dessa mulher saber que ele estava se casando comigo, continuaram se encontrando. Que tipo de mulher aceita ser preterida dessa forma e se sujeita a recolher migalhas como mimos? E, pior, que homem é esse com quem penso ter construído o início de uma família? Minha mãe sempre acerta em seus pressentimentos; normalmente levo a sério seus conselhos, mas, dessa vez, optei pelo descrédito. Segundo ela, ele é um homem de muitos mistérios, de desagradáveis surpresas.
Prendi a respiração e olhei as fotos anexas ao texto. A mulher parece uma hiena e se comporta como uma - de acordo com trechos escritos por ela. Não é nem um pouco bonita e eu nunca imaginaria que o Márcio se interessaria por ela. Mas ela desenha pornografias, em sua grande maioria, e isso pode ter despertado nele um desejo de conhecer a inspiração da autora. Ele trouxe um quadro dela para a nossa casa, mas pedi para que se livrasse daquilo. Não sou pudica, mas aquela pornografia explícita não é erótica, é desconcertante.
A facilidade da comunicação, em nossa era, ajuda bastante a vida do dissimulado permitindo manter uma comunicação regular ocultamente, mas também, dá as ferramentas necessárias ao rastreio do prevaricador. Quantas vezes ele pegou seu telefone celular, olhou o que estava escrito e não esboçou nenhuma reação! O aparelho  está sempre sob sua vigília e  está programado somente para vibrar. É, o homem exala a mistério! Onde ele encontra tempo para a traição? Trabalha tanto... Será que é justamente esse álibi que possui?
Falta um tempo ainda para ele chegar, nesse ínterim, tentarei ler o que ela escreve no Facebook. Estará aberto ao público? O e-mail nojento acusa a hienídea de escancarar sua condição também nas publicações daquele programa de relacionamento.
O que farei agora? Depois do confronto, que atitude poderei ter? Não dará tempo para ligar para a minha mãe. Apesar de saber que solução ela daria ao conflito, preciso dela ao meu lado. Ih, a chave rodou na fechadura, o filho da Dona Mocinha chegou! E agora, esgano o desgraçado?


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

desenho em prosa

Parcialmente oculta no reflexo do ontem, adivinho a expressão verde-tolerante dos seus olhos. Escuto a cadência silenciosa de sua leitura, sob minha batuta, enquanto remo com alguma dificuldade neste mar verbal. Minha sinalização canhestra atrai você para o emaranhado do meu pensamento desabado em algum vazio. Desajeito em nós.
Antes, era fácil derreter minha doçura em cozimento lento.
No fundo do meu baú de máscaras fora de moda, encontrei a de carne e osso;  aquela com os olhos flamejantes e um sorriso de canto. Vestida de outrora, canto parabéns pra você.


sexta-feira, 12 de outubro de 2012

No centenário da coroação

Recebi a ligação de uma amiga de São Paulo que me perguntou: posso colocar o seu nome na lista dos jurados do concurso para a nova coroa da Nossa Senhora Aparecida? Será nos dias 12 e 13 de fevereiro, lá no Santuário Nacional. Assenti imediatamente; seria um evento único, imperdível. Não sou religiosa, mas acredito em anjo da guarda e na existência de Deus. Aprendi que há um porquê o qual me é respondido, muito provavelmente, no devido tempo. Não sou moderninha, fui criada em família e escolas católicas. Entretanto, embora minha avó Susana tenha me ensinado que a Virgem Maria, mãe de Jesus, era a minha madrinha, até aquele encontro com a imagem de Nossa Senhora no Santuário, nós nunca havíamos tido uma aparente ligação.


Do mezanino da catedral a gente fica de frente para o nicho onde a imagem original, retirada do Rio Paraíba do Sul, está disposta. Olhei para aquele símbolo envolto em uma capa azul coroada e não ofereci resistência. Deixei meus preconceitos a respeito de santos e virgens católicas e conversei com aquela mulher. Resolvi fazer o que nunca havia me ocorrido antes: fiz uma promessa de difícil cumprimento. Saí do encontro feliz e, por incrível que pareça, iluminada. Após terminar a escolha da nova coroa, o pequeno grupo foi agraciado com uma réplica autenticada. Já em São Paulo, notei a diferença entre o antes e o depois da minha promessa.
Nossa Senhora da Conceição Aparecida não brincava em serviço, já havia iniciado seu processo de ajuda. De volta ao Rio, decidi ir a pé do Santos Dumont até a estação das barcas. Estava com a mochila nas costas e agarrada ao embrulho precioso. Nada de errado poderia acontecer; meu medo era de danificar a minha Nossa Senhora. Na primeira esquina na saída do aeroporto parou um táxi, sem eu ter chamado, que abriu o vidro do carona e perguntou para onde eu ia. Contei que meu destino era a Praça XV ciente de que ele desistiria. Era muito perto e os táxis do Rio detestam corridas curtas. O sujeito não desistiu e replicou: está muito sol e aqui dentro o ar-refrigerado está ligado; eu levo a senhora até a estação das barcas. Entrei no táxi confiante de que não seria uma furada, tinha a proteção da mãe e nada de mal me aconteceria. El me levou até o ponto mais próximo das barcas, dei uma boa gorjeta e fui contente pegar meu catamarã para Niterói. Aquilo havia sido um pequeno milagre. Quem pega táxi na cidade do Rio de Janeiro entende o que eu disse.
Todas as vezes em que passei pela cidade de Aparecida, dirigindo ou de ônibus pela Dutra, agradeci a Ela por tudo. Em fevereiro de 2011, dirigindo para São Paulo, ao passar pela cúpula majestosa da Catedral, agradeci a Ela todos aqueles anos de promessa cumprida, mas abri mão do nosso compromisso. A alegria passou a ser um fardo pesado e era a hora do encerramento. O rompimento foi cumprido e ao dirigir de volta, chorei pela primeira vez quando passei pelo mesmo ponto.
Continuamos ligadas e sei que Ela vem me presenteando com tudo que preciso.
Hoje é seu dia e homenageio essa mãe, que tenho certeza, trata-me como filha dileta.


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sábado, 6 de outubro de 2012

Meu primeiro James Bond

Fomos em uma sessão à noite do finado Cinema Odeon, no centro de Niterói. Talvez tenha sido a minha primeira vez naquele cinema enorme, de 1.578 lugares. Lembro-me do calçamento de cerâmica vermelha do caminho até a bilheteria. O prédio era recuado; achei lindo e aprovei aquela disposição. Tinha 12 anos e estava feliz: cinema à noite com o meu pai.
Sobre o filme eu apenas sabia ser de um gênero que eu nunca havia assistido, mas ele me dissera: "é um clássico de filme de espionagem, você vai gostar". As primeiras cenas tiraram meu fôlego; o silêncio dos Alpes suíços cortado pelo ranger rápido de um par de esquis. Adorei o início, foi inesquecível essa sensação. Curiosamente, não era Sean Connery o famoso espião desse filme; assistíamos 007 a Serviço (Secreto) de Sua Magestade. Poderia jurar que a tradução do filme naquele cinema não continha o "secreto". Mas eu nem sabia quem era Sean Connery e muito menos havia ouvido falar em James Bond.
Não lembro mais nada do filme além das cenas dos Alpes - assisti novamente na década de noventa e adorei, de novo - e da trilha sonora. Era Louis Armstrong cantando "We have all the time in the world". Não poderia ter sido melhor, o programa era perfeito.
Ontem, foi comemorado o Dia do 007 - James Bond. Festejei os 50 anos do espião mais famoso e charmoso do cinema com essa lembrança de adolescente.


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terça-feira, 18 de setembro de 2012

O Filho




Em algum momento de 1988 chegara a hora de fazer a ultrasonografia na qual se poderia saber o sexo do bebê. Minha avó Maria e eu queríamos saber; por motivos distintos. Ela torcia por uma menina porque a última que havia nascido, na família Guimarães, havia sido eu. Trinta anos depois, ela achava que eu viraria esse jogo. Seu desejo não foi cumprido, não nessa ocasião e nem por mim. Quando a médica disse "é um menino!", minha avó soltou um "ai" da dor da decepção. Quanto a mim, cantarolei em minha mente o trecho da ópera rock 'Tommy', do the Who: "It's a boy, Mrs Walker, it's a boy". A lembrança do coro, impressionante, retumbava na minha lembrança: "A son! ... A son!"
Essa música entrou no meu coração de menina de 16 anos me arrepiando os cabelos de emoção; por causa dela eu soube: desejava ser mãe de um menino.
Não havia nome escolhido para menina, tínhamos apenas 'Eduardo'. A escolha foi minha e aceita prontamente pelo pai. Era o nome de seu falecido pai e a homenagem seria mais um presente em nossa vida.
Escolhi esse nome porque os Eduardo que orbitavam minha vida eram pessoas muito queridas. Desde criança brinco de colorir os nomes (de pessoas e objetos) e Eduardo foi colorido de amarelo e laranja dourados, como as cores do pôr do sol - as pessoas chamam isso de sinestesia, chamo de brincadeira de criança. Eu jamais teria um filho colorido de cinza, marrom, branco, preto ou outra cor neutra.
No momento em que soube que meu mais profundo e inconfessável desejo foi satisfeito, conversei com Deus. Fiz um pedido em forma de desejo; mentalizei o desejo de um filho feliz, de excelente caráter, inteligente, querido pelos que o rodeiam, amigo, amoroso, amigo da família, estudioso e tranquilo. Ao desejar esse Eduardo, lembrei de um outro, um amigo de infância. O Edu era tudo isso - penso que ele seja. Encerrei minha conversa com Deus 'dizendo': tipo o Edu.
O poder das palavras, ou dos desejos, é algo que não posso negar que exista, mas sempre me impressiona. Não desejei beleza, cor ou tipo de cabelo, altura ou cor do olhos. Para minha surpresa, nasceu um Edu mais caprichado, pelo menos na minha opinião de mãe coruja.
Meu Eduardo foi lindo desde o primeiro dia; desejei lindo por dentro, mas recebi de bônus um filho lindo, em todas as idades, também em sua aparência.
Como de hábito, mantive essa constatação em segredo por algum tempo. Precisei desistir do intento quando uma grande amiga do trabalho me repreendeu em seu sotaque 'portunhol': "Susaninha, bonitinho é o meu filho, o seu é lindo!"
O dia mais feliz da minha vida não foi o nascimento do meu filho; esse foi o dia mais apavorante de todos. Filho é responsabilidade e ligação profunda de uma vida toda - e quem sabe de todas as vidas que possam haver? Mas foi um dia mágico de transformação do medo em o mais profundo amor.
Minha felicidade é contínua; todos os dias em que percebo que aquela minha primeira conversa com Deus sobre o meu Eduardo surtiu efeito, sorrio por dentro, maravilhada pelo filho que ganhei na minha vida.
Canto a música "Children and all that jazz", na minha mente, pela boca de Joan Baez, e me fixo em partes da música que também me arrepiavam quando eu tinha 19 anos: "you go to bed, now...you're smarter than I am"

Estou em Genebra e hoje já é 19 de setembro. Meu filho completa 24 anos de vida e estou longe. Novamente converso com Deus e agradeço; ratifico meus desejos para o meu filho e tenho a confiança de ser atendida.

O melhor de mim, o fruto e objeto do meu amor: meu filho. Parabéns para você e eu!

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