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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Na Adversidade

As reuniões em Brasília podem ser muito agradáveis quando os componentes são gente que, apesar de levar o trabalho muito a sério, tocam os assuntos com leveza e alegria.
Minha quarta-feira antevéspera do feriado da independência não foi diferente. Almocei em companhia de um grande amigo e que me buscou no final da reunião para me levar ao aeroporto. Lastimamos eu não poder ficar mais um tempo por lá e combinamos qualquer viagem de fim de semana para colocarmos os papos em dia.
Já no guichê de check-in da TAM, descobri que meu assento era na poltrona do meio: 18b. Perguntei se não havia outro local e a funcionária explicou que somente na "poltrona confort". Nem havia o que pensar, paguei com alegria o assento 11c. 
Nos despedimos com um abraço apertado daqueles que a gente sabe o quanto é bem-vinda e parti para o meu destino: voo 3029, portão 10.
Esperei muito pouco para entrar, meu cartão platinum me proporciona prioridade no embarque. Sentei-me ao corredor e voltei a escrever um texto que havia iniciado no voo de ida; o avião foi lotando enquanto eu estava entretida na minha escrita. Um dos últimos passageiros foi um homem com a idade indefinida daqueles que parecem ter feito plástica no rosto e ficam parecendo parentes próximos do Paulo Maluf. Impliquei imediatamente com aquela figura de terno marrom, falando palavrões ao telefone. Enquanto estava ao telefone, ele colocou sua bagagem no compatimento acima do meu assento. A barriga dele interrompeu minha atividade e precisei me encolher junto ao passageiro ao meu lado. Estava detestando aquilo tudo e resmungando por dentro: figura típica de Brasília! O homem se sentou na poltrona da mesma fila, também no corredor. Voltei a escrever e, de repente, ouvimos um estrondo medonho e senti uma dor lancinante no topo da cabeça. Olhei de soslaio para o chão e, aos pés do homem com cara de sapo, estava caída uma maleta larga, de couro marrom.
A mão esquerda, colocada à cabeça instintivamente como se fosse fazer parar a dor, estava ensanguentada e o passageiro ao meu lado falou: "a senhora está sangrando". Respondi meio apavorada, mas firme: eu sei. Levantei-me e a maleta ainda estava no mesmo lugar. Fulminei o batráquio com o olhar e perguntei em tom de acusação: a mala é do senhor, não é? "Sim, é minha." O anuro não teve como negar o que seguramente tentava disfarçar. Cuspi a frase com todo o meu nojo e indignação: eu sabia, o senhor é um arrogante. Agiu com arrogância ao colocar uma mala em local onde sabia que não caberia.
O imbecil respondeu na defensiva: "Arrogante, eu? Eu pedi desculpas à senhora!"
Não sei se ele se desculpu, não escutei e era totalmente irrelevante.
Peguei meu livro no bolsão à frente da poltrona e saí do avião com a roupa e o cabelo empapados de sangue. As portas ainda não haviam sido fechadas. As comissárias estavam na parte da frente da aeronave, apavoradas com a cena. Uma delas me perguntou: "A senhora não trouxe uma bolsa?" Claro que eu havia trazido, descrevi a bolsa e esperei uma delas ir buscar. Afastei-me das duas outras porque a minha figura devia estar nauseante enquanto uma delas me dizia que já havia chamado atendimento médico do aeroporto. A moça demorou a voltar - imagino a quantidade de tralha colocada encima da minha bolsa - e eu sabia que não iria aguentar muito tempo ali em pé. Avisei que iria entrar no aeroporto e elas concordaram. Nenhuma pareceu vir atrás de mim, mas, ao chegar no embarque, havia outra turma de funcionários da TAM, também no portão 10, para um outro voo. Falei para a moça com o rádio na mão e que acabara de escutar o acidente: vou me sentar naquela cadeira de rodas, tá? Ela assentiu e disse: "fique calma, o atendimento médico está a caminho." Peguei o telefone para ligar para o meu amigo, falei com ele rapidamente e prometi ligar dando mais notícias. Senti minha pressão despencar e o enjoo veio fortíssimo: eu ia desabar e me imundar mais ainda. Resolvi abaixar a cabeça para não desmaiar. A funcionária com o rádio decidiu não esperar o socorro e encaminhou minha cadeira rumo à emergência. Expliquei a ela que, se algo me acontecesse, ela deveria ligar para o meu amigo, último telefone registrado, do meu aparelho branco. Expliquei que a bateria estava no final, mas eu trazia o fio em minha bolsa. Logo depois de chegarmos à emergência da INFRAERO a outra equipe de médico e enfermeiro chegou por não ter me encontrado. Fui muito bem tratada no atendimento e me fizeram as peguntas de praxe; a quantidade de cabelo que tenho estava atrapalhando a investigação no meu couro cabeludo. Foi preciso meter minha cabeça abaixo da torneira para que o médico diagnosticasse: "2 cortes, um deles precisa ser suturado. Você terá que ir ao hospital." Como não era caso para ambulância, a INFRAERO me levaria ao hospital onde há o atendimento do meu plano de saúde. Preferi pedir para chamarem meu amigo porque me sinto mais segura com ele. Enquanto esperava ele chegar, fiz umas ligações, avisei ao meu diretor que eu perderia as duas reuniões importantes no dia seguinte e pedi para me colocarem em um voo no dia seguinte. Eram sete horas da noite e eu adivinhava que estávamos apenas no início de uma maratona indesejada. Obtive total apoio de todos para quem liguei avisando; todos ficaram indignados com o ocorrido e muito preocupados. Senti-me muito amparada e querida; foi bom para o meu emocional.
Houve mudança de turno de médicos e enfermeiros, todos se despediram de mim e o médico do plantão pediu para eu repetir tudo que havia acontecido e me avisou: "conte ao médico no atendimento do hospital que você quase desmaiou e quase vomitou, é muito importante." Meu amigo chegou em seguida e me perguntou exatamente sobre o assunto e ratificou as instruções do médico. Fomos ao hospital Brasília, próximo ao aeroporto e onde é aceito o plano UNIMED. Seguimos o protocolo e, para a nossa surpresa, o plano Leste-Fluminense não é aceito nesse hospital. Depois de algumas tentativas frustradas de ligar para o 0800 fornecido por esse hospital, voltamos ao atendimento um pouco nervosos pelo tempo perdido e sem solução do problema. Minha cabeça voltara a sangrar. Finalmente, conseguimos um telefone local da UNIMED que nos indicou outro hospital. O atendimento do hospital Alvorada me deixou apreensiva. Havia gente esperando o atendimento para consulta comum misturado à gente com problemas de emergência, mesmo. Pegamos a senha e esperamos. Uma das funcionárias perguntou em voz alta: "tem alguém preferencial?" Ninguém disse nada e resolvi perguntar: cabeça aberta serve para atendimento preferencial? A moça disse: "não sei." Mas afinal, quem sabe? Ela chamou o próximo número da senha que era anterior ao nosso, em seguida, uma outra chamou meu número. Feita a ficha, fui atendida na sala de cirurgia. A médica perguntou: "está em dia com as vacinas?" Que vacinas? Não tomo vacina desde a infância!
Ela identificou apenas um corte e fez a sutura depois de avisar: "a picada da anestesia vai doer e arder." Doeu e ardeu, mas fazer o quê? O último ponto foi sentido, eram três ou quatro - saberei quando forem retirados. A quantidade de sangue deixada na cama foi grande, mas eu estava suturada, só faltava fazer o exame de raio-x. Minha caveira estava intacta, nenhuma fissura. A doutora fez um pedido de vacinação contra tétano o qual eu deveria fazer em até 24 horas. Saímos do hospital direto para a casa do meu querido amigo que cuidou de mim, colocou minhas roupas para lavar e me emprestou outras para eu vestir depois do banho. Meu cabelo estava completamente grudado e foi preciso três lavagens seguidas para ficarem apresentáveis. Depois de limpa e medicada, foi inevitável pensar na sorte em ter acontecido em Brasília, onde tenho apoio incondicional do meu adorado amigo, por ele ter disponibilidade para me acudir, lugar para eu dormir e também por possuir uma fabulosa máquina de lavar que também seca a roupa.
Compramos coca no posto de gasolina, pedimos pizza e dormi bem, não senti dores e meus ferimentos não sangraram mais. Realmente, sou afortunada, apesar do incidente. Lembrei-me do meu antigo, e muito querido, chefe que uma vez me disse: "Susana, até na adversidade, você tem sorte!"
Voltei para casa na manhã seguinte na mesma poltrona, mas o voo estava vazio e pulei para a janela, bem longe da boca do bagageiro. Em Niterói, fui direto para o posto de saúde tomar a vacina. Sem prestar a atenção ao que fazia, deixei o enfermeiro pegar meu braço esquerdo. Instruída de chegar em casa e pôr gelo, cheguei finalmente em casa. Não doeu nada; sim, dei a maior sorte.


foto tirada assim que entrei no voo 3029, de 5 de setembro, que deve ter partido às 18:18h de Brasília para o Santos Dumont com uma poltrona vazia: a minha.

Crônica Paralela




Naquela manhã fresca e ensolarada, percorri o interminável sobe e desce das calçadas do bairro de Pinheiros, na cidade de São Paulo. Minha saia dançava entre minhas pernas enquanto meu pensamento fluía sobre um fundo alvo e tranquilo. Os sons do ambiente a minha volta não influenciavam o meu humor; eu cantarolava sem utilizar a língua. Uma lufada de vento rasteiro embolou um punhado de papel no meu calcanhar e não tive outra saída senão parar e resgatar aquelas páginas finíssimas de seda. Desdobrei o retângulo branco e encontrei uma letra invejável. "Mia, embora esse não seja o seu nome, nossa história é parte de um cenário inventado no qual somos personagens fictícios."
Era uma carta de três páginas, desenhadas por letras firmes, grandes e regulares. Senti uma ponta de inveja da caligrafia e constrangimento pela curiosidade em conhecer o conteúdo. Seria ético ler uma correspondência alheia, mesmo que tenha voado até mim? Nós três estávamos protegidos pelo anonimato; resolvi seguir em frente e não ceder à tentação de pular as duas páginas para ler o final e ver a assinatura.
A poucos metros, vislumbrei o café em frente à praça; estava adiantada para o meu compromisso, havia tempo de sobra para me sentar e tomar um cappuccino enquanto transgredia meu próprio comportamento. E se os donos aparecerem agora e me pegarem em flagrante? Olhei para os lados e não havia ninguém interessado em nada além de olhar para frente em ritmo rápido de coelho de Alice.
Pedi a bebida e voltei à leitura despudoradamente. "Nessa história de quase amor, não há lugar para relacionamento; são os nós das cordas que nos unem, nossos apelidos concebidos nos esconderijos de gente como você e eu."
Quem são esses dois? Parceiros de crime, de ideologia ou quem sabe de uma sociedade secreta? Agora eu estava realmente curiosa. Seja lá em qual categoria eles poderiam ser classificados, era um mundo novo pra mim e eu certamente iria me divertir com a leitura surreal. Bela e implacável, a escrita continuava: "Os caminhos que você vem percorrendo ao meu lado são meus velhos conhecidos. As mulheres são diferentes e iguais, ao mesmo tempo, mas sempre previsíveis. Algumas têm garra afiada de algemas que tentam me possuir - essas, têm prazo de menos de dois anos de validade. Você, não, é escrava, pertence a mim, não pode me aprisionar. No entanto, a submissão tem um preço salgado, lágrimas e cobranças estão fora do contexto. Como era esperado, as unhas femininas começaram a crescer e o quarto, antes arejado, tornou-se insuportável de se respirar. É a minha hora de partir; outro metrô virá atrás."
Não estava divertida, era uma carta de despedida de uma acidez assombrosa. Escrava, senhor(a?), cordas e o descaramento do aviso de que era hora de caçar outra. Carne nova.
Senti um enjoo. Teria sido o café forte do cappuccino? Era melhor eu pedir uma coca; estava zonza. Os esses e pês se confundiam na minha leitura, agora um pouco turva; eu lia sem o prazer da curiosidade, varria burocraticamente as palavras duras e incompreensíveis.
_ "Você é minha, mas não consegue deixar de ter a vida comum de mãe de cinco filhos; a vida mediana, ordinária."
5 filhos? Como uma mulher com cinco filhos consegue tempo para entrar nesse mundo estranhíssimo de BSM? Seriam de um mesmo pai? O casamento - ou casamentos - teriam sido nesses termos? Ainda estaria casada? Essas respostas certamente não seriam encontradas nas três páginas apertadas em minhas mãos. Pesquisarei sobre o assunto quando tiver tempo. Acho que não conheço ninguém do meio para perguntar. Será? Voltei a me interessar pelo texto e compreendi o ponto de vista do autor - ou autora - da carta. Filharada alheia, emprego medíocre, vida mediana e, provavelmente, essa mulher deve levar uma vida sem muito charme e facilidades. Cuidar de cinco filhos não deve ser nada fácil! Senti um arrepio ao pensar que, no lugar dela, perderia o equilíbrio. Pensando bem, que sanidade tem uma mulher que se escraviza por conta própria?
_ "Você é bastante esforçada em me agradar; desempenha essa função com maestria. Escrava sênior, é assim mesmo que eu gosto! Procura ter os meus gostos e demonstra se indignar com o que também me é sensível. Mas a gente não tem nada a ver com o outro, percebo que seus comentários, exageradamente permeados de citações, perdem o vigor quando você expõe seus próprios pensamentos. Suas frases são desconexas quando você tenta ser o que não é. De um jeito ou de outro, o desencaixe acontece; acho que nunca fomos conectados."
Humilhação ao extremo. Faz parte desse jogo de controle e submissão? Não bastaria o pé na bunda, ainda era preciso pisar e rodar o pé, como se faz com um cigarro aceso?
Dei cabo da primeira página meio abalada, fiquei na dúvida se teria estrutura emocional para continuar. De alguma maneira inexplicável me identifiquei com aquela mulher, estava lendo como se fosse endereçada a mim. Não seria escravidão ser refém de uma paixão? Tive uma vertigem passageira e senti o gosto ferruginoso de sangue na boca.
Chamei o garçom para pedir o refrigerante enquanto descolava a segunda página da última. Outra rajada de vento me pegou no exato instante da troca de papéis nas mãos e levou embora justamente as folhas não lidas. Fiquei com expressão abobalhada agarrando a primeira página inutilmente. Nem pensei em correr atrás, porque a cena parecia de uma Mary Poppins às avessas. Libertei o papel que borboleteava em minha mão. Cada página tomou uma direção distinta; estavam livres dos olhares curiosos como os meus. Nunca saberia o final da carta, mas da história, certamente poderia imaginar. O autor, ou autora, estava a salvo. Olhei no relógio: hora do meu encontro. Engoli a bebida gelada e gasosa inibindo um arroto de consolo.
Atravessei a praça procurando a figura conhecida. Ele veio ao meu encontro vestindo seu sorriso amplo que tanto me atrai. Por trás dos óculos escuros adivinhei seus olhos quentes de alegria por me ver. O abraço apertado veio acompanhado do murmúrio misturado a um suspiro: "meu amor!" Ele não notou a lágrima desobediente enquanto nos beijávamos. Chorei pela mulher desafortunada e pela minha alegria e conforto de saber-me amada e rainha.

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domingo, 18 de março de 2012

Foi fato e não fantasia - muito tenso.

A menina de apenas três anos estava odiando aquele lugar infernalmente quente e irrespirável. Sua mãe havia retirado o vestido de domingo e a deixara somente de calcinha. O problema é que ela usava uma de suas "calcinhas de sair". Naquela época, as crianças usualmente tinham calcinhas caras - da marca Valisère, de tecido sintético, inadequado para o clima do Rio de Janeiro e com babadinhos do próprio tecido em quase toda sua extensão posterior - para sair. As calcinhas de ficar em casa, brincar e ir à escolinha, sua mãe costurava em casa, em tecido de algodão e com rendinhas nas pontas.
Essa criança era eu, e me lembro desses detalhes perfeitamente. Ficaram gravados na minha memória, provavelmente, pelo horror estampado nos rostos familiares.
Carrego somente três lembranças de nossa ida ao fatídico circo; a segunda delas, é o barulho do estalido do chicote do domador dos elefantes. Muitos anos mais tarde, minha prima Regina me explicou que o domador chicoteava o chão, e não os elefantes. Já era tarde demais, a então Susaninha estava detestando aquela aparente crueldade com os animais e queria ir embora daquele local onde não sentira prazer algum em estar. Meu sentimento de desconforto dentro daquele lugar sufocante faz parte da minha cena do domador de elefantes. E se eu tivesse pedido: "mãe, vamos embora?" Minha fama era de criança boazinha e obediente, aguentei até o fim. Esse comportamento me salvou a vida, mas disso eu saberia três décadas depois.
No domingo 17 de dezembro de 1961, as mulheres da família Guimarães (minha mãe, a tia Thereza e a tia Áurea) foram com as crianças ao circo enquanto os maridos, apaixonados por futebol (meu pai e tio Geraldo) - levando meu primo Paulo (menino, ainda), filho do tio Geraldo e da tia Áurea -, foram ao Maracanã assistir Botafogo e América. Segundo relato do Paulo, ele estava com o radinho de pilha ao ouvido - ao mesmo tempo em que presenciava o jogo - quando escutou o alarme dado pela rádio: "pegou fogo o circo em Niterói e tem muita gente morta!". Paulo conta que meu pai e meu tio correram para fora do estádio em direção ao carro de seu pai e praticamente se esqueceram dele. O menino era acostumado a correr atrás de cafifa e balão e não ficou para trás. Ocorre que, naquela época, não existia a ponte que liga as cidades. Ir de carro ao Maracanã implicava em uma travessia demorada de barcaça pela baía de Guanabara. Nos anos sessenta não havia telefones celulares e mesmo os telefones fixos, eram raros. Conta o meu pai, que o capitão avisou que não atracaria a barca porque estava desesperado: sua família também havia ido ao circo. Quem estava a bordo saltou para o pier de atracamento deixando seus carros para trás. Os homens correram para o bar mais próximo e telefonaram para a casa do meu avô Zózimo, que deu a notícia: "estão todos salvos, estão aqui." Meu tio desmaiou.
Durante toda a minha vida ouvi muito pouco sobre o incêndio. Minha família evitava reviver o episódio, minhas amigas nunca comentaram e, durante muitos anos, não contei a ninguém que quase não tive a chance de construir minha própria história. O fato é que o assunto é tabu em Niterói. A dor sempre foi grande, porque poucos se salvaram sem nenhum arranhão - foi o nosso caso -; quando criança, via muita gente com a pele queimada. Lembro de minha mãe comentando baixinho em meu ouvido: "fulana (geralmente eram mulheres) estava no circo." Muitas "fulanas" perderam seus filhos na ocasião. O assunto era indigesto, ninguém ousava escarafunchar aquela ferida muito mal fechada.
Estava com trinta e muitos quando a minha amada tia Thereza, para comprovar o quanto me amava, disse-me com todas as palavras: "voltei para buscar você no circo, você estava sentadinha no mesmo lugar; peguei você no colo e, quando saímos, a lona tombou incendiando tudo."  Todos os pelos do meu corpo se arrepiaram de espanto e emoção. Respondi: tia, eu lembro de estar sentada sozinha nas cadeiras de madeira. Era a minha terceira e última memória do ocorrido. Nunca havia mencionado essa lembrança, aparentemente fora de lugar. Como eu poderia estar sentada no circo rodeada por cadeiras vazias? Parecia uma recordação inventada, mas não era. Fechou!
Ao ler o livro, entendi tudo; compreendi o motivo do tabu não imposto, mas escolhido. O relato sobre os que voltaram para buscar alguém que havia ficado - às vezes esse alguém já havia saído - demonstrou o sentimento uniforme sobre o que dizer aos pais a respeito da perda quem estava junto. A maioria dos que voltaram não sobreviveu.
Ao saírem pela entrada dos artistas, minha tia notou que eu não estava e voltou. Desvencilhou-se dos que não queriam deixar que ela entrasse no incêndio e salvou a minha vida. Foi loucura retornar, mas, depois de ler o livro, compreendi que a minha tia jamais poderia encarar o irmão predileto se deixasse sua única filha ser consumida pelo fogo. Estragaria a vida de ambos; dificilmente ela conseguiria ter paz consigo se não tentasse. Minha tia, minha heroína. Sorte minha ter tido ela por perto.
Meu pai, ela e eu sempre tivemos uma ligação muito profunda; elo selado, definitivamente, em uma tarde tórrida e tenebrosa na então capital do Estado do Rio de Janeiro.

Obrigada, minha tia, o paraíso certamente é a sua morada! Espero merecer deitar minha cabeça em seu colo, como antes, sentindo suas unhas acariciando meu cabelo; por toda a eternidade.

A construção do desamor


Minha tranquilidade no segundo sábado de março foi interrompida pelos brados desesperados de um pai que praticamente urrava: “Romero*, pelo amor de Deus, levante do chão, meu filho! Romero, o que você tem, meu filho? Abra a boca, Romero, pelo amor de Deus!” Ao fundo, podia-se ouvir um choro de agonia límpida e arrepiante. A mãe praticamente gania diante da cria, que eu não via, mas, apavorada, adivinhava.
O som vinha do prédio de trás e entrava pelas janelas da minha casa inundando meu equilíbrio emocional. A voz do homem retumbava estremecendo meu corpo inteiro; só consegui rezar em voz baixa: “Deus, salve esse menino, por favor!” Foram momentos de terror testemunhados silenciosamente por outra mãe. De repente, um nada. O ambiente voltou à calma natural de uma vizinhança silenciosa. Dentro de mim, o estrago da lembrança de que a vida poderá puxar o tapete de flores onde deposito o amor pelo meu próprio filho. Rezei novamente: “Deus, pelo amor de tudo que há, primeiro eu, depois, muito tempo depois, meu filho!”
Minha cabeça estava prestes a explodir; certamente, minha pressão arterial foi ao píncaro e  só havia diurético em casa. Quase confessei ao meu filho estar me sentindo mal; entretanto, preferi apostar no mantra “passou, passou, passou...”. Tarde de cão para os protagonistas e para mim. Somente no fim da noite, depois do entorpecimento do vinho regado à conversa amiga, senti uma tíbia melhora. No domingo, tive a sensação da ressaca do choro não derramado do dia anterior. Fim de semana de arrepiar.
O calendário girou novamente trazendo o terceiro sábado de março e a mesma voz de homem troou no início da noite: “Romero, seu filho da p**, vai tomar no seu c***! Minhas coisas ficam embaixo! Está chorando por causa de quê?” O pai do filho daquilo repetia, aos berros, os palavrões para aquele mesmo filho que, exatamente há uma semana, convulsionou-se caído ao chão. Mais ou menos uma hora antes, a mãe chamava a atenção do filho, gritava que estava de castigo e que não o deixaria sair.
Não sei a idade do Romero, não se escuta sua replica. O macho alfa é o pai; um perfeito animal. O tom da voz do homem traduz sua condição inculta, pouquíssima educada e extremamente machista. Pressinto uma família infeliz e acostumada a abusos hereditários. Que espécie de homem os pais do Romero vislumbram ajudar a formar? Senti ira por esse casal covarde e inconsequente; senti asco das vozes que algumas vezes arranharam a paz da redondeza com suas brigas domésticas. Pobre mulher subjugada; testemunha que não reage. Onde foi parar a leoa que habita cada mãe de sangue quente? F-i-l-h-o é palavra que sai doce da boca dos pais; pelo menos deveria ser assim.
De que adianta tanta inovação em todas as áreas se o homem involui no sagrado?
Oração de hoje: “Deus, presenteie aquela casa com uma brisa de poesia e amor!” Milagre, só divino, mesmo!

 foto tirada no Beco do Batman, na esquina da rua Harmonia, na Vila Madalena, em São Paulo.

* o nome foi trocado em respeito à vítima;
** as putas que me perdoem, mas quem usou o nome como xingamento não fui eu;
*** nome feio que traduz o máximo do ódio por alguém.

sábado, 3 de setembro de 2011

fantasia de verdade

'Te adoro!' Depois de confessar que nunca a esquecera e que sempre fora apaixonado por ela, despediu-se levando a promessa de se verem no próximo sábado. Não se viam ou se falavam há décadas; ele foi o primeiro namorado dela. Ambos lembravam dos momentos compartilhados: passeios, praia, manhãs na escola e tardes aos abraços e beijos. 'Por que não saíamos com amigos e somente sozinhos?'; ela quis saber depois de passados mais de trinta anos. Ele não pediu explicações sobre a pergunta, sabia que o motivo pelo qual ela desistira daquele primeiro amor correspondido fora a solidão a dois. Respondeu que foi por infantilidade, por não querer dividi-la com mais ninguém e que pensava nela em todas horas. Não ficaram amigos depois, mas nunca brigaram, também. Desgrudaram-se.
'Você furou ao nosso encontro!' disse o segundo ex-namorado, abruptamente ao telefone, há menos de uma semana antes. Ambos caíram na gargalhada quando ele disse onde estava. Coincidentemente, muitas vezes se encontraram fazendo compras em um hipermercado. Ele a negócios e ela pela rotina da vida doméstica.
O primeiro e o segundo sempre foram muito bem humorados, expansivos e camaradas. Ambos a faziam sorrir com frequência e continuavam a tratá-la com carinho especial. Ela gostaria de tê-los; de qual forma, não conseguiria dizer.
'Gosto muito de você, viu?' disse apressadamente o ex-marido antes de desligar, depois de se encher de coragem, há poucos meses atrás. Ela sorriu ao perceber o esforço da confissão regada ao velho álcool companheiro que o fazia abrir uma nesga de sua concha privada.
O casamento fora bom, trouxe uma felicidade diferente daquela experimentada. Resultou no fruto dos sonhos: o filho. O presente que ela nunca pensou merecer; não 'ganhou' um filho comum, concebeu um extraordinário. Mas, novamente ela se sentia só. A natureza dela é insular, embora nascida e crescida em baía. Estranhamente, ela também gostaria de tê-lo: queria os três.
'Mas eu também sou apaixonado por você!' disse o dono da pastelaria e do coração dela. Claro que ela não acreditou, não era verdade. O amor dele por ela era como um sopro sussurrado, igual às baforadas circulares que fazia para diverti-la. Mais de uma década de encontros, alguns desencontros e muitos momentos marcantes. Pela ótica dela, um amor apimentado e desmesurado; para ele, um mistério e mais uma. Solidão mais dolorida não houve; terminou como começou: na estranheza. Este, ela nunca poderá querer ter.



quinta-feira, 28 de julho de 2011

alma na lama

Com o tempo passa;
Nada como o tempo para curar;
Dê tempo ao tempo;
Mas, afinal, quanto tempo é preciso para que a memória ardida e atemporal perca o interesse por um tempo que já não há?
Que esforço seria necessário caso o desejo não fosse de se abandonar, sem asas, no abismo de um ponto no infinito?
Coração, bicho decorativo, serviçal de um cérebro caprichoso e cruelmente voluntarioso.





Saudade de torniquete espinhoso; memória de ruídos, gestos e sabores.
"Nós não temos nada a ver um com outro"
A vida de mão única; minha vida de segunda mão.
Quem tem o segredo de desligar o querer? Como se desama quem descortinado impuro e caótico, humanamente se adora?
O tempo volta todo tempo e me esmaga pianola triste.
Não passa, não, foi um tempo gravado a fogo.
Nem caco, nem pó; inanimado, morto e enterrado.
3 de agosto de desgosto; 12 de pouco e sobra do nada.
Devolva meu eu, é meu!




quarta-feira, 13 de julho de 2011

Leopideas: 12 ANGRY MEN

Leopideas: 12 ANGRY MEN: "Julgamentos. Julgamos a todo o momento, a cada passo, a cada olhar, tomamos uma decisão baseada em referências passadas e em perspectivas fu..."

Um de meus brinquedos prediletos na infância era o quebra-cabeça. Lembro do primeiro que tive - porque brinquei durante muitos anos justamente devido à nostalgia de ser o primeiro. Eram cubos de madeira com estampas coladas que chamávamos de 'cromos'. Coisa bem antiga, mesmo. Depois tive os tradicionais, os com encaixes. Na vida adulta, noto que as tarefas que me fascinam são as que me fazem juntar conceitos e refletir nas variantes. Gosto de solucionar.
Nào assisti ao filme do qual o Leo comentou acima, nenhuma das versōes, mas, problemas que envolvem a morte de alguém, não me traria nenhum prazer. Certamente, o filme é ótimo, mas, senti um frio na espinha só em ler a sinopse do Leo.
Obrigada pela dica, Leo, irei assistir assim que eu tiver uma folga de horário.